O Medo Não Decide, Você Decide
- Marx Gabriel

- há 3 dias
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Atualizado: há 1 dia

Há uma pergunta que toda liderança deveria fazer a si mesmo neste momento: quando o mundo entra em colapso, quem, de fato, está no comando das suas decisões: você ou o medo?
Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta de gestão.
Vivemos, objetivamente, um dos momentos de maior instabilidade geopolítica das últimas décadas. A guerra entre EUA e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, bloqueou efetivamente o Estreito de Ormuz, uma faixa de mar de apenas 39 quilômetros de largura no ponto mais estreito, por onde transitam mais de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a um quinto do consumo global de petróleo. Apenas por esse corredor passa também um quarto de todo o petróleo negociado por via marítima no planeta.
As consequências já são visíveis. O preço do barril de petróleo subiu 50% desde fevereiro. O Brent chegou a US$ 120 por barril à medida que o mercado começou a precificar o risco de disrupção prolongada. A Goldman Sachs alertou que os preços podem ultrapassar US$ 100 se as interrupções no transporte continuarem. A Oxford Economics simulou cenários em que o Brent sustentado a US$ 140 por dois meses poderia empurrar economias europeias para a recessão. O Morgan Stanley estima que um aumento de 10% nos preços do petróleo eleva a inflação ao consumidor em cerca de 0,35 ponto percentual nos três meses seguintes.
E isso é apenas a camada mais visível.
O choque para os fertilizantes é potencialmente mais devastador do que o do petróleo, e mais subestimado. O Golfo Pérsico é uma artéria vital para ureia, amônia, enxofre e outros insumos agrícolas. Os preços da ureia subiram cerca de 30% no último mês, enquanto o óleo de soja atingiu seu nível mais alto em mais de dois anos. Para o agronegócio brasileiro, que depende estruturalmente da importação de fertilizantes nitrogenados, o timing é brutal: o plantio do Hemisfério Norte começa agora, e as decisões de compra estão sendo feitas num cenário de pico de preços e incerteza máxima.
O medo, portanto, não é irracional. É uma resposta proporcional à realidade.
A questão não é sentir medo, mas o que ele faz com sua capacidade de decidir.
A história já passou por aqui antes
Antes de falar sobre gestão e estratégia, é preciso falar sobre perspectiva. Porque sem ela, qualquer análise de crise se torna apenas mais um texto de pânico bem formatado.
A humanidade nunca viveu em paz permanente. Nunca.
A Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra durou de 1337 a 1453. Cento e dezesseis anos de conflito contínuo, fome, peste e colapso institucional. Durante esse período, cidades foram destruídas, reinos mudaram de mãos, a própria identidade francesa como nação foi forjada no fogo. E ainda assim: famílias se formaram, filhos nasceram, catedrais foram construídas, vinhedos foram plantados e colhidos, universidades foram fundadas. A Universidade de Paris, que já existia, continuou funcionando durante todo o conflito. O comércio não parou. A vida não parou.
As Guerras Napoleônicas devastaram a Europa de 1803 a 1815. Mais de três milhões de mortos. Fronteiras redesenhadas. Impérios derrubados. E nesse mesmo período, Beethoven compôs a Quinta Sinfonia, a Sexta e a Sétima. Goethe escreveu Fausto. A Revolução Industrial se consolidava na Inglaterra, criando as bases do capitalismo moderno. Empresas nasciam. O sistema bancário se sofisticava. O mundo dos negócios não aguardou o fim das guerras para evoluir.
A Primeira Guerra Mundial consumiu entre 1914 e 1918 mais de 20 milhões de vidas. E durante esses quatro anos de horror, o jazz floresceu nos Estados Unidos, a Ford expandiu a produção industrial, a aviação comercial começou a ser concebida, e as bases da comunicação de massa foram lançadas. Empresas que se tornaram ícones do século XX nasceram ou cresceram nesse período.
A Segunda Guerra Mundial foi ainda mais brutal. Entre 1939 e 1945, o mundo assistiu ao genocídio, ao bombardeio sistemático de cidades inteiras, ao colapso de impérios coloniais e ao redesenho completo da ordem global. E foi exatamente durante esse conflito e imediatamente após ele que surgiram a Organização das Nações Unidas, o Plano Marshall, o sistema de Bretton Woods, as bases da União Europeia e o maior ciclo de crescimento econômico que o mundo ocidental já experimentou.
A história não oferece consolo fácil. Ela oferece algo mais valioso: evidência.
A evidência de que a vida humana, a criatividade, o empreendedorismo e a construção de valor não esperam o fim das guerras para acontecer. Eles acontecem durante as guerras. Apesar delas. Às vezes, por causa delas.
Cada geração acredita estar vivendo a crise mais grave da história. E cada geração, ao olhar para trás, descobre que estava errada. Não porque a crise não fosse grave, mas porque a capacidade humana de continuar sempre provou ser maior do que o tamanho do medo.
O que o medo faz com o cérebro de um líder
A neurociência do medo é implacável na sua consistência. Quando o cérebro percebe uma ameaça, real ou imaginada, a amígdala é ativada. O cortisol e a adrenalina inundam o organismo. O sistema nervoso entra em modo de sobrevivência. E o córtex pré-frontal, sede do raciocínio estratégico, da ponderação de riscos e da visão de longo prazo, é literalmente suprimido.
O economista comportamental George Loewenstein descreveu com precisão cirúrgica o que acontece:
"O medo nos faz frear em vez de conduzir pela curva, nos imobiliza quando mais precisamos de força, e nos tira a clareza e a eloquência exatamente no momento em que elas mais têm valor."
Para um executivo, isso se traduz em comportamentos muito concretos: postergação de decisões de investimento, abandono de estratégias de crescimento por opções aparentemente mais seguras, contratações travadas, negociações paralisadas e orçamentos contingenciados ao limite do conservadorismo. Pesquisas com executivos revelam que líderes com maior exposição pessoal ao risco tiveram uma tendência maior a fazer aquisições diversificadas e defensivas que não geraram valor para os acionistas, priorizando a proteção da própria carreira em detrimento da estratégia.
Uma pesquisa da McKinsey revelou que 85% dos executivos concordam que o medo bloqueia os esforços de inovação com frequência ou sempre em suas organizações, e que nove em cada dez empresas não fazem nada para mitigar esse fenômeno.
Pense nisso por um segundo. Não é o mercado que paralisa as empresas. É o medo que paralisa os líderes que dirigem as empresas.
A armadilha da prudência como disfarce
Existe uma zona intermediária, perigosa e confortável, que o medo habita com maestria no mundo corporativo: a aparência de prudência.
Quando um líder paralisa investimentos em nome da "cautela estratégica", quando posterga decisões sob o argumento de "aguardar o cenário se clarear", quando evita conversas difíceis em nome da "estabilidade do ambiente", ele não está sendo prudente. Está cedendo terreno ao medo, embalado em linguagem de gestão.
A pesquisa acadêmica chama isso de tomada de decisão defensiva: quando gestores não decidem no melhor interesse da organização, mas optam pela alternativa pessoalmente mais segura. O custo estimado desse comportamento equivale a 10,8% da receita anual de uma organização.
Quase 11% da receita anual. Não pela guerra. Não pelo petróleo. Pelo medo de decidir.
O líder que age por medo não perde por incompetência técnica. Perde por encolhimento interno. E o encolhimento, por definição, é silencioso. Não aparece no balanço do trimestre, mas corrói a posição competitiva mês a mês.
O princípio que atravessa os séculos
Há uma sabedoria filosófica que a Estoá sistematizou há mais de dois mil anos e que toda crise revalida com brutalidade: a distinção entre o que está sob nosso controle e o que não está.
Epiteto, escravo que se tornou um dos maiores filósofos da Antiguidade, formulou essa ideia com a clareza de quem conhecia a impotência na própria pele: algumas coisas dependem de nós, outras não. O preço do petróleo não depende de você. A duração da guerra não depende de você. A decisão do Federal Reserve sobre juros não depende de você. A trajetória da inflação global não depende de você.
Mas há um conjunto de coisas que depende inteiramente de você, e é exatamente sobre esse conjunto que toda a sua energia deve ser direcionada agora.
Você controla a qualidade do trabalho que entrega hoje. Você controla o quanto estuda e se prepara para o ambiente que virá depois da crise. Você controla a eficiência operacional da sua empresa. Você controla a profundidade das suas relações com clientes, parceiros e fornecedores. Você controla a clareza da sua comunicação com a sua equipe. Você controla as decisões de investimento no seu próprio desenvolvimento e no desenvolvimento do seu negócio. Você controla a velocidade com que aprende e se adapta.
Crises são, antes de tudo, um mecanismo brutal de seleção. Elas não destroem indistintamente. Elas destroem os que param e redistribuem o terreno para os que continuam em movimento. Quem trabalha durante a tempestade chega primeiro ao sol.
Durante a Guerra dos Cem Anos, enquanto exércitos marchavam, agricultores plantavam. Enquanto a Segunda Guerra destruía cidades europeias, engenheiros americanos construíam os fundamentos da economia mais poderosa da história moderna. A história não é uma linha de progresso ininterrupto. É uma série de crises atravessadas por pessoas que decidiram continuar fazendo o que dependia delas.
O que fazer, concretamente, agora
A resposta a um momento como este não é otimismo ingênuo nem pessimismo paralisante. É clareza operacional.
Trabalhe mais. Não por ansiedade, mas por convicção de que o esforço consistente, feito hoje, se converte em posição competitiva amanhã. Os mercados se reorganizarão. As cadeias de suprimentos se ajustarão. A geopolítica encontrará novos equilíbrios. E quando isso acontecer, as empresas que estiverem mais bem preparadas, mais bem treinadas e mais bem posicionadas capturarão a nova distribuição de oportunidades.
Estude com seriedade. Crises aceleram a obsolescência de modelos, de práticas e de competências. O executivo que usa este período para aprofundar o seu conhecimento em gestão, estratégia, tecnologia, finanças ou no seu setor específico chega ao próximo ciclo com vantagem real sobre aqueles que passaram o mesmo período consumindo notícias e produzindo preocupação.
Evolua a sua empresa. Revise processos. Elimine desperdícios. Fortaleça o que é essencial. Aproxime-se dos seus melhores clientes. Invista nas pessoas certas. Crises revelam fragilidades que o ambiente favorável escondia, e essa revelação, por mais dolorosa que seja, é uma oportunidade rara de correção.
Não espere o mundo se resolver para começar a agir. O mundo nunca se resolve completamente. Há sempre uma guerra, uma crise financeira, uma pandemia, uma disrupção tecnológica ou uma eleição de resultado imprevisível no horizonte. Quem aguarda a estabilidade perfeita para agir, não age nunca.
Para encerrar
O mundo está em crise. O petróleo está acima de US$ 90 o barril. A inflação voltou a rondar economias que mal haviam se recuperado. A incerteza geopolítica não tem data para se resolver.
Tudo isso é verdade.
E também é verdade que durante a Guerra dos Cem Anos, durante as Guerras Napoleônicas, durante as duas Guerras Mundiais, seres humanos continuaram casando, tendo filhos, compondo músicas, fundando empresas, construindo igrejas e universidades, plantando campos e colhendo safras.
Eles não esperaram a paz para viver. Viveram durante a guerra.
A grande lição da história não é que tudo sempre termina bem. É que os que continuam fazendo o que depende deles, enquanto outros se paralisam diante do que não depende de ninguém, são exatamente os que constroem o futuro, tanto nos negócios quanto na vida.
Você não pode controlar o Estreito de Ormuz. Não pode controlar o preço do barril. Não pode controlar a decisão de presidentes e generais.
Mas pode trabalhar. Pode estudar. Pode evoluir. Pode construir. Pode decidir.
E é justamente isso, apenas isso, e tudo isso, que separa os que lideram dos que lamentam.
Marx Alexandre Corrêa Gabriel
Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”, Peregrino do Caminho de Santiago e da Vida.



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