𝙏𝙚𝙧 & 𝙎𝙚𝙧
- Marx Gabriel

- há 19 horas
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Vivemos um tempo em que a fronteira entre ter e ser tornou-se progressivamente indistinta.
Não porque o ser humano tenha deixado de buscar sentido (isso é constitutivo da condição humana), mas porque a cultura contemporânea passou a sugerir, de forma cada vez mais sofisticada, que esse sentido pode ser adquirido, comprado, acumulado ou compensado por bens, experiências e conforto material.
Não se trata de uma crítica ao progresso, ao trabalho ou à prosperidade.
Trata-se de algo mais profundo: a transferência silenciosa de expectativas existenciais para o campo material. O ter, que sempre foi meio, passa a ser investido da função de resolver questões que pertencem ao campo do ser.
A pergunta central, portanto, não é se devemos ter. A pergunta é: o que estamos esperando que o ter resolva em nós?
1. O que a ciência efetivamente mediu e onde ela se encerra
A discussão sobre dinheiro e felicidade deixou, há algum tempo, de ser apenas filosófica ou religiosa. A ciência empírica passou a investigá-la com método, dados e escala.
Um dos estudos mais robustos e citados sobre o tema foi conduzido por Daniel Kahneman (prêmio Nobel) e Angus Deaton, publicado em 2010 nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
O estudo utilizou o Gallup-Healthways Well-Being Index, um levantamento contínuo realizado nos Estados Unidos entre 2008 e 2009, com uma amostra de aproximadamente 450.000 entrevistas individuais com adultos, abrangendo ampla diversidade de renda, idade, escolaridade, estado civil e região geográfica.
O rigor do estudo começa por uma distinção conceitual que raramente aparece no debate público: felicidade não é uma variável única.
Duas dimensões distintas de bem-estar
Os autores mediram separadamente:
1. Avaliação da vida (life evaluation)
– Medida pela Escada de Cantril, em escala de 0 a 10.
– O entrevistado avalia sua vida como um todo, considerando passado, presente e expectativas futuras.
– Trata-se de um julgamento cognitivo, reflexivo e comparativo.
2. Bem-estar emocional (emotional well-being)
– Medido por perguntas objetivas sobre o dia anterior à entrevista.
– Emoções positivas: alegria, prazer, riso.
– Emoções negativas: estresse, preocupação, tristeza, raiva.
– Trata-se de uma medida vivencial, ligada à experiência cotidiana imediata.
Essa distinção é central, pois evita a confusão entre estar satisfeito com a própria vida e sentir-se bem vivendo-a.
2. Resultados quantitativos: o que os dados mostram
Renda e avaliação da vida
Os dados revelam uma relação crescente e consistente entre renda familiar anual e avaliação da vida:
• À medida que a renda aumenta, a nota média atribuída à própria vida também aumenta.
• Não há, dentro do intervalo observado, um ponto estatisticamente claro de saturação.
• Pessoas de renda mais elevada tendem a relatar: maior sensação de controle, maior segurança, melhor percepção de status e expectativas futuras mais favoráveis.
Conclusão técnica:
A renda melhora de forma contínua a avaliação cognitiva da vida.
Aqui, o ter cumpre adequadamente sua função instrumental.
Renda e bem-estar emocional
Quando se observa o bem-estar emocional, a relação se altera de maneira decisiva:
• O aumento da renda melhora o bem-estar emocional apenas até certo ponto.
• Esse ponto foi identificado estatisticamente em torno de US$ 75.000 por ano (valores nominais da época).
• Acima desse patamar a frequência de emoções positivas não aumenta de forma relevante, os níveis de estresse, preocupação e tristeza não diminuem, a variabilidade emocional permanece praticamente estável.
Conclusão técnica:
Ganhos adicionais de renda não produzem ganhos proporcionais no bem-estar emocional cotidiano.
Não se trata de um juízo moral, mas de um achado empírico robusto: a partir de uma renda que oferece segurança, o dinheiro não aumenta a felicidade.
Variáveis com maior impacto emocional que a renda
O próprio modelo estatístico evidencia que, quando se trata de bem-estar emocional, outras variáveis superam a renda em poder explicativo, entre elas:
• qualidade dos relacionamentos pessoais,
• vínculos conjugais estáveis,
• saúde física e mental,
• desemprego,
• presença ou ausência de apoio social.
Esses fatores apresentam correlações mais fortes com emoções positivas e negativas do que aumentos adicionais de renda acima do patamar citado.
A ciência, portanto, delimita com precisão o alcance do dinheiro:
ele organiza a vida, mas não sustenta indefinidamente a experiência emocional de vivê-la.
3. O vazio que emerge quando o sentido falta
Muito antes de dados estatísticos confirmarem esse limite, a psicologia profunda já o havia identificado por outra via. Carl Gustav Jung, a partir de décadas de escuta clínica, observou que o sofrimento humano mais persistente raramente nasce da carência material, mas da perda de sentido.
Ao refletir sobre os fundamentos de uma vida psíquica equilibrada, Jung apontava para fatores que atravessam culturas e épocas: saúde física e mental, vínculos afetivos consistentes, sensibilidade à beleza, trabalho com significado e, sobretudo, uma visão filosófica ou espiritual capaz de sustentar o indivíduo diante das vicissitudes inevitáveis da existência.
O dinheiro pode facilitar alguns desses aspectos, mas não os substitui.
Quando o eixo do sentido se perde, nenhum conforto material é suficiente para preencher o vazio que se instala.
O que falta não é quantidade, mas direção.
4. Ter ou não ter: o limite como sabedoria
Essa distinção é desenvolvida com rara clareza pelo rabino Nilton Bonder em “Ter ou não ter: eis a questão.”
Bonder não demoniza o dinheiro nem condena o consumo.
Seu alerta é mais profundo: o erro não está no ter, mas na expectativa depositada sobre ele.
Bonder propõe a imagem das duas moedas:
• A moeda do ter opera no campo da finitude. Há um teto claro para sua eficácia. O prazer do ter satura rapidamente e obedece à lógica dos rendimentos decrescentes.
• A moeda do ser opera no campo do infinito. Amor, amizade, fé, pertencimento, sentido e paz interior não possuem teto. Ao contrário: expandem-se com o uso.
Mercadorias ocupam espaços físicos.
Vazios existenciais exigem outra moeda.
5. Mamom: quando o meio se torna senhor
É exatamente essa inversão que Jesus Cristo denuncia ao afirmar:“Não se pode servir a Deus e a Mamom.”
Mamom não representa apenas riqueza, mas a matéria absolutizada, transformada em fonte última de segurança, identidade e sentido.
Quando o dinheiro deixa de ser instrumento e passa a ser senhor, o ter ocupa o lugar do ser.
Nesse movimento, perde-se algo essencial: a consciência da identidade espiritual, da filiação divina, do valor que não depende da posse.
Servir a Mamom é esperar da matéria aquilo que só o espírito pode oferecer.
6. Família, amigos, fé e tempo: o território do Ser
Os fatores que sustentam o bem-estar emocional profundo, confirmados pela ciência, intuídos pela psicologia e ensinados pela tradição espiritual, pertencem todos ao campo do ser. Família, amizades verdadeiras, fé vivida, tempo de presença, vínculos reais.
Esses elementos não obedecem à lógica da acumulação.
Não se compram, não se substituem e não saturam.
Ao contrário: aprofundam-se com o tempo e com a entrega.
Aqui não há teto.
Há profundidade.
Conclusão: Recolocar cada coisa em seu lugar
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja econômico, mas simbólico.
Não é a escassez de recursos que mais nos ameaça, mas a confusão de hierarquias.
Quando o ter passa a ocupar o lugar do ser, quando o dinheiro deixa de ser meio e se torna critério de valor, algo silenciosamente se desloca dentro de nós.
A ciência mostrou, com dados e método, que o dinheiro melhora a vida até onde lhe cabe melhorar. A partir daí, ele já não entrega o que promete.
A psicologia revelou que o vazio humano não nasce da falta de coisas, mas da ausência de sentido.
A sabedoria contemporânea alertou que mercadorias não curam angústias existenciais.
A tradição espiritual foi ainda mais precisa: quando transformamos a matéria em absoluto, perdemos o centro.
Nada disso exige renúncia ao mundo, nem demonização da prosperidade. Exige apenas ordem. Ordem interior. Ordem de valores. Ordem de expectativas.
O dinheiro é um excelente servo, mas um péssimo senhor.
O conforto é um aliado legítimo, mas jamais um substituto trágico do sentido.
A prosperidade é bem-vinda sempre, desde que não seja confundida com identidade.
Família, amizade, fé, tempo vivido, presença real, consciência de pertencimento: essas dimensões não competem com o ter. Elas simplesmente não operam na mesma lógica.
Não se acumulam, não se aceleram, não se compram. E, justamente por isso, sustentam.
No fundo, a questão nunca foi “quanto temos”, mas o que fazemos com aquilo que temos e, sobretudo, quem nos tornamos enquanto buscamos.
Recolocar o ter no seu lugar não empobrece a vida.
Ao contrário: liberta o ser para aquilo que ele sabe fazer melhor: viver com sentido.
E talvez esse seja o verdadeiro luxo que nenhuma renda consegue comprar: a paz de saber quem somos, a quem pertencemos e por que seguimos adiante, mesmo quando tudo o que pode ser comprado já não basta.
Agora, permita-me encerrar este ensaio com uma sugestão e uma provocação.
Imagine, primeiro, que você está em um hospital. O médico entra no quarto e lhe diz que você tem apenas uma hora de vida. Ele acrescenta que, se quiser, você pode escrever uma carta para seus familiares e amigos.
Escreva essa carta.
O que você diria?
O que escolheria registrar como essencial?
Quais palavras sobreviveriam quando tudo o mais perde importância?
Em seguida, imagine que seu sepultamento está acontecendo. Pouco antes de o caixão descer, alguém da sua família ou um amigo próximo faz um pequeno discurso de despedida, descrevendo você e quem você foi e como marcou a vida daqueles que o amaram.
Como você gostaria que fosse esse discurso?
Que tipo de presença você teria sido?
Que memória permaneceria?
Escreva esse discurso.
Espero que estas palavras lhe façam refletir sobre o papel do dinheiro na sua vida e sobre qual é realmente o seu propósito na passagem por este mundo.
Ter & Ser: a escala de cores somos nós que damos.
Marx Alexandre Corrêa Gabriel
Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”, Peregrino do Caminho de Santiago e da Vida.






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