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Ser Empresário no Brasil Não é Para Qualquer Um

Entre a demonização e o glamour, a realidade que ninguém tem coragem de contar

 

 

As duas mentiras que dominam o debate

 

Há dois discursos sobre o empresário brasileiro que circulam com força crescente nos últimos anos. Os dois têm audiência. Os dois têm defensores fervorosos. E os dois estão errados.


O primeiro transforma o empresário em vilão. Um governo com vocação redistributivista, uma mídia de grande alcance com viés ideológico consolidado e um discurso político que precisa de antagonistas fáceis construíram, ao longo de décadas, a narrativa de que o empresário é o responsável pelas desigualdades do país. É ele quem não paga impostos. É ele quem explora o trabalhador. É ele quem concentra riqueza enquanto o Brasil sofre. Essa narrativa ignora, convenientemente, que o empresário já carrega uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo, opera com juros que inviabilizariam qualquer negócio em qualquer economia desenvolvida e assume riscos que nenhum servidor público, nenhum sindicalista e nenhum político jamais terão de enfrentar pessoalmente.


O segundo discurso vai na direção oposta com o mesmo excesso. Universidades de negócios, influenciadores digitais, institutos de inovação, o ecossistema de startups e, mais recentemente, os chamados clubes de empresários constroem a imagem de que qualquer pessoa com um celular, uma ideia e acesso a uma ferramenta de inteligência artificial pode montar uma empresa, escalar receita e se tornar rica em prazo razoável.


Esses clubes merecem atenção particular. Tornaram-se um fenômeno de mercado por conta própria: empreendedores iniciantes, e às vezes experientes, pagam fortunas mensais para ouvir, em encontros presenciais e conteúdos exclusivos, lições de quem ficou rico vendendo exatamente isso. Autoajuda embalada em linguagem de negócios. O modelo é inteligente: quem vende pertencimento, vocabulário e sensação de movimento raramente precisa entregar resultado. O cliente acha que está aprendendo a empreender. Está, na verdade, consumindo entretenimento corporativo.


Empreender virou estilo de vida. “Pitch deck” virou currículo. Founder virou identidade. E quem não está construindo algo do zero começa a sentir que ficou para trás.


Conheço bem esse fenômeno. Tenho um amigo e cliente, hoje com cerca de quarenta e cinco anos, que acompanho desde a adolescência. Pessoa altamente capaz, com visão de negócio, com inteligência analítica e com caráter formado. Ele tem diante de si uma oportunidade que noventa e nove por cento dos brasileiros jamais terão: suceder o pai à frente de uma empresa com mais de quarenta anos de história, consolidada no mercado, com clientes, com marca, com estrutura e com geração de caixa real.


Mas ele hesita. Participa de ecossistemas, frequenta clubes, consome conteúdo de fundadores que saíram do zero. E às vezes parece mais animado com a ideia de criar uma startup nova, do absoluto zero, do que de assumir a presidência de uma empresa que já tem tudo o que qualquer empreendedor sonha construir ao longo de décadas.


Por quê? Porque o discurso do glamour criou uma hierarquia invertida. Suceder uma empresa familiar consolidada, transformá-la, expandi-la, profissionalizá-la e levá-la a um novo patamar, isso não aparece nos feeds. Não gera palco em congresso de inovação. Não tem o romantismo do "comecei do zero com uma ideia e um notebook."


Mas é, objetivamente, uma das formas mais inteligentes, seguras e impactantes de empreender que existem. E ele tem essa chance nas mãos.


O problema não é a ambição. O problema é quando o discurso do ecossistema substitui o julgamento próprio, e o empresário começa a medir seu valor pelo critério errado: não pelo resultado que constrói, mas pela narrativa que consegue contar.

 

O que os números dizem, e o que o futebol ensina


Mais de 95% das empresas abertas no Brasil fecham antes de completar cinco anos de operação. Esse número, documentado pelo SEBRAE e por pesquisas do IBGE, não é uma curiosidade estatística. É uma sentença que se repete, silenciosamente, todos os dias, em cada cidade do país.


Para cada empresário que construiu algo sólido, há noventa e nove que faliram, se endividaram, perderam patrimônio pessoal, destruíram relacionamentos familiares ou simplesmente sobrevivem com margens que não justificam o risco assumido.


A analogia com o futebol é precisa. Noventa por cento dos jogadores profissionais brasileiros ganham até quatro salários-mínimos por mês. A maioria luta para se manter em divisões regionais, sem estabilidade, sem projeção e sem o glamour que a mídia esportiva projeta sobre a carreira. Mas todo jovem que bota a chuteira nos pés mira no salário de Neymar. Não no salário mediano da categoria. No topo absoluto.


Com o empreendedorismo acontece o mesmo. O debate público mira nos casos de sucesso extraordinário: a startup que captou cem milhões, o empresário que vendeu a empresa para um fundo internacional, o fundador que apareceu na capa da revista. Ninguém faz reportagem sobre os noventa e cinco por cento.


Isso não significa que não se deve empreender. Significa que empreender com ilusão mata empresas antes mesmo de elas começarem.

 

O ambiente hostil: não é paranoia, é realidade


Qualquer análise séria sobre os motivos que levam tantas empresas a fechar no Brasil precisa encarar o ambiente econômico e institucional do país sem eufemismos.


A taxa Selic opera próxima de quinze por cento ao ano. Para um empresário que precisa de capital de giro, financiar operações no Brasil significa pagar um custo financeiro que tornaria inviável qualquer negócio equivalente em qualquer economia com alguma racionalidade macroeconômica. O dinheiro caro no Brasil não é acidente nem fatalidade. É resultado de escolhas políticas que nunca colocaram o setor produtivo real no centro das prioridades.


A carga tributária brasileira não apenas é alta. Ela é complexa, instável e, em muitos casos, contraditória. O empresário pequeno e médio não tem departamento jurídico-tributário para navegar esse labirinto. Ele paga, frequentemente a mais, ou se arrisca em situações de passivo que não compreendia completamente.


O judiciário brasileiro, em muitos contextos, protege o devedor e pune o credor. Protege o empregado e onera o empregador com uma rigidez processual que desestimula a contratação formal. Contratos que deveriam ser executados levam anos de litígio.


A grande mídia, com raras exceções, não cobre o empresário como agente produtivo. Cobre o empresário como suspeito em potencial, ou como símbolo de desigualdade, ou como alvo de investigação. Raramente como o homem ou a mulher que levantou às seis da manhã durante quinze anos para construir algo que emprega dez, vinte, cinquenta famílias.


Tudo isso não é queixa. É contexto. E quem empreende no Brasil sem compreender esse contexto está navegando sem mapa.

 

O empresário real: aquele que sustenta o país em silêncio


Quando se fala em empresário, o debate público tende a evocar imagens de grandes conglomerados, banqueiros, bilionários com influência política. Esses existem, têm seus interesses e sua agenda. Mas não são o tema desta reflexão.


O empresário real do Brasil é outro. É dono de uma transportadora de médio porte no interior de Minas. É o proprietário de uma pequena indústria de alimentos no Paraná. É quem abriu uma empresa de serviços em Manaus e luta, mês a mês, para manter o fluxo de caixa positivo. É quem administra uma rede de três lojas e reinveste quase tudo o que gera para não perder competitividade.


Esse empresário não aparece em capa de revista. Não faz palestra em congresso de inovação. Não tem assessoria de imprensa. Mas é ele quem gera a maior parte dos empregos formais do país, quem paga a folha, quem recolhe tributos todos os meses, quem sustenta municípios inteiros onde o poder público seria incapaz de garantir qualquer renda relevante.


Há exemplos concretos que merecem ser nomeados, porque são invisíveis no debate público, mas representam o que há de mais consistente no empresariado brasileiro.


No interior do Mato Grosso do Sul, uma rede de supermercados construída do absoluto zero tornou-se uma empresa média, sólida e vencedora, com presença regional expressiva, geração de empregos locais e gestão profissional desenvolvida ao longo de décadas. Sem fundo de investimento. Sem incentivo governamental. Com trabalho, método e reinvestimento sistemático dos resultados.


No Sul do país, um grupo de empresários que começou com um pequeno açougue, evoluiu para um supermercado, reinvestiu nas margens, apostou na industrialização e construiu, com recursos próprios, quatro fábricas distribuídas entre Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Uma trajetória que levou décadas, foi construída tijolo a tijolo e nunca dependeu de narrativa de inovação para justificar sua existência. Dependeu de execução.


No Norte do Brasil, no Amazonas, uma rede de saúde que começou do zero e hoje opera três hospitais, emprega mais de dois mil profissionais e desenvolveu, com capital próprio, a aplicação de inteligência artificial à medicina que figura entre as mais avançadas do Brasil. Uma empresa familiar que não esperou o governo resolver o problema da saúde pública na região. Foi lá, construiu, arriscou e entregou resultado real para uma população que precisava de solução, não de promessa.


Esses três exemplos têm algo em comum: foram construídos com recursos próprios, sem apoio estatal, sem glamour midiático e sem palco em congresso de startups. São o empresário real do Brasil.


Esse empresário não é herói nem vilão. É um profissional que escolheu o caminho mais difícil da economia: o risco próprio, sem rede de proteção pública, sem salário garantido no fim do mês, sem décimo terceiro e sem plano de carreira definido por outro. E precisa ser tratado como o que é: um dos ativos mais valiosos e mais maltratados do Brasil.

 

O que separa quem fica de quem fecha


Reconhecer o ambiente hostil é necessário. Mas parar nessa constatação seria confortável demais. A pergunta útil não é apenas por que tantas empresas fecham? A pergunta útil é: o que têm em comum as que sobrevivem e crescem?


A primeira resposta é perfil. Ser empresário exige uma combinação de características que não se improvisa e não se compra: tolerância real ao risco, não apenas retórica; capacidade de tomar decisões com informação incompleta; resiliência para operar sob pressão crônica; e disposição para assumir responsabilidade plena pelos resultados, sem externalizar culpa para o governo, para a economia, para a equipe ou para o mercado.


Perfil não se substitui por entusiasmo. Muitas empresas morrem carregadas pelo otimismo do fundador e pela ausência de análise crítica. A pergunta que todo empreendedor deveria responder com rigor antes de abrir um negócio não é acredito nessa ideia? É: por que esse negócio vai dar certo? O que garante que tenho clientes? Por que ninguém antes entrou, ou por que todos que entraram não ficaram?


A segunda resposta é capacidade técnica e de gestão. Uma empresa não sobrevive pela qualidade do produto ou serviço que entrega. Sobrevive pela qualidade da gestão que a conduz. Fluxo de caixa, precificação, gestão de pessoas, processos operacionais, posicionamento de mercado, relação com fornecedores e clientes: todos esses elementos exigem competência que precisa ser desenvolvida e atualizada continuamente.


O empresário que para de estudar, que para de participar de fóruns, de cursos, de congressos, de conversas com pares e especialistas, que para de questionar seus próprios modelos, começa, naquele momento, a decretar a obsolescência do negócio. O mercado muda. Os clientes mudam. A tecnologia muda. A gestão que funcionou em 2016 não funciona em 2026.


A terceira resposta é preparo para a continuidade. Há no Brasil, hoje, mais empresas à venda do que compradores dispostos a adquiri-las. Parte disso é reflexo do ambiente econômico. Mas uma parte significativa é resultado de empresas que nunca investiram em gestão profissional, que não prepararam sucessores, que não documentaram processos, que não construíram uma organização capaz de funcionar além da presença pessoal do fundador. Uma empresa que depende inteiramente do dono não é um ativo. É um emprego com risco ilimitado.

 

Empreender é uma escolha séria, não um sonho de fim de semana


O Brasil precisa de mais empresários. Precisa de empresários melhores preparados, mais resilientes, com gestão mais rigorosa e com visão mais longa. Esse é um dos caminhos reais para o desenvolvimento econômico do país, independentemente de qualquer agenda política.


Mas o Brasil não precisa de mais ilusão em torno do empreendedorismo. Não precisa de mais jovens abrindo empresas sem diagnóstico de mercado, sem reserva financeira, sem domínio do negócio e sem disposição para fazer o trabalho duro que toda operação real exige.


Empreender no Brasil é um ato de coragem. Mas coragem sem preparo não é virtude. É imprudência.


Quem decide ser empresário precisa escolher isso com os olhos abertos: os riscos são reais, o ambiente é hostil, a maioria não consegue, e o sucesso não vem da ideia, vem da execução continuada, da gestão consistente e da capacidade de aprender mais rápido do que o mercado muda.


Esse é o verdadeiro empresário. O que ficou. O que insistiu com método. O que pagou para aprender e não parou de aprender. O que construiu, tijolo a tijolo, algo que vai além de si mesmo. Ele merece respeito. E merece, também, a verdade.



Marx Alexandre Corrêa Gabriel

Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração e teima em ser empresário há mais de 30 anos na área de prestação de serviços e de pecuária. É Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”, Peregrino do Caminho de Santiago e da Vida.



 
 
 

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