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Bola de Meia, Bola de Gude


Aristóteles disse que o homem é o que ele faz repetidas vezes. Não o que ele parece. Não o que ele fala. O que ele faz. Dessa sentença breve e precisa emergir a definição mais honesta de caráter que já foi escrita: caráter não é o que você declara ser, é o que suas ações, repetidas ao longo do tempo, provam que você é.

 

Rui Barbosa alertou, com a precisão dos grandes, que de tanto ver triunfar as nulidades e prosperar a desonra, o homem chega a ter vergonha de ser honesto. Esse dia, no Brasil, parece ter chegado. A desonestidade deixou de ser exceção para se tornar quase um padrão institucional. E o que torna esse quadro ainda mais grave é que os que deveriam dar o exemplo, aqueles investidos pela sociedade da autoridade para defender a lei e a moral pública, são, com frequência crescente, os que mais os violam.

 

O mundo corporativo não escapa. Quase toda empresa brasileira de porte médio para cima tem, em sua declaração de cultura organizacional, pelo menos um destes valores gravados na parede: ética, honestidade, integridade, confiança. As palavras são bonitas, os letreiros são bem-feitos. Mas a prática institucional, a conduta dos sócios, dos diretores, dos executivos que assinam embaixo dessas declarações, com frequência é completamente dissociada do que está escrito.

 

O mesmo vale para os cidadãos. Profissionais liberais, empresários, executivos que nas redes sociais destroem políticos, exigem ética pública, declaram nojo da corrupção, e no dia seguinte agem com a mesma hipocrisia que condenam. Diferentemente do que ensinou Aristóteles, esses falam muito e fazem pouco. E o que fazem, repetidamente, revela o caráter real que carregam.

 

Na semana passada, coordenei um trabalho para uma empresa nacional. Estavam presentes os dois sócios, o CEO e os cinco principais executivos. Passamos uma tarde inteira discutindo missão, visão e, sobretudo, valores. Cada frase, cada comportamento esperado, cada prática que deveria dar vida ao que estava escrito. Durante todo o processo, alertei repetidamente: seria exatamente a coerência daquelas pessoas, ali reunidas, a mais alta liderança da empresa, que determinaria se os demais funcionários cumpririam aqueles valores com orgulho ou os ignorariam com naturalidade. Porque uma definição de valores, por mais bem escrita que seja, não vale nada sem a prática constante de quem lidera. O que não é praticado pela liderança vira hipocrisia institucional. E hipocrisia institucional é exatamente o que encontramos na maior parte das empresas brasileiras que têm a sua cultura pendurada na parede e esquecida no corredor.

 

Hannah Arendt, ao cunhar o conceito de "banalidade do mal", descreveu como atos profundamente errados se tornam corriqueiros quando as pessoas param de pensar e passam a agir como se não fossem responsáveis pelo que fazem. O que vemos hoje, no descumprimento sistemático da palavra dada, é exatamente isso: a banalidade da desonra. E o que agrava é o desplante. Quem não cumpre o que disse raramente assume. Encontra uma justificativa, transfere a culpa, age como se estivesse cumprindo ordens de uma circunstância maior do que ele. Mas não há mais escravos. Cada pessoa é inteiramente responsável pelo que diz e pelo que faz.

 

O custo concreto disso está à vista. O Brasil é o país com o maior número de advogados por habitante do mundo, mais de 1,3 milhão registrados na OAB. Isso não é apenas reflexo de leis mal escritas. É o preço de uma sociedade onde a palavra não basta, onde o acordo precisa de cláusulas, subcláusulas, multas e foro competente para ter alguma chance de ser cumprido. Os contratos ficam cada vez maiores não porque os negócios ficaram mais complexos. Ficam maiores porque a confiança ficou menor. E a confiança ficou menor porque a palavra dada perdeu valor. Porque não se dá importância ao cumprimento do que foi acordado, esquecendo que é exatamente isso que forma o caráter, e é exatamente o caráter que sustenta qualquer relação duradoura, seja entre pessoas, seja entre empresas.

 

Não foi apenas Aristóteles quem compreendeu o peso da palavra. Kant foi ainda mais categórico: cumprir o que se prometeu não é uma questão de conveniência, é um dever moral absoluto. Seu raciocínio era simples e devastador. Se todos quebrassem promessas quando conveniente, a própria instituição da promessa deixaria de existir, pois ninguém mais acreditaria em ninguém. A promessa é um contrato da razão. Quebrá-la é tratar o outro como instrumento, como meio para um fim, e não como um ser com dignidade própria. O imperativo categórico kantiano diz exatamente isso:

 

"Age de tal maneira que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal."

 

Pergunte-se, antes de descumprir o que disse: e se todos fizessem o mesmo?

 

Do outro lado do mundo, Confúcio chegou à mesma conclusão por outro caminho. Na filosofia oriental, a confiança, o xìn, é um dos cinco valores fundamentais da existência humana. Para Confúcio, um governante ou um cidadão sem palavra é como um carro sem rodas: simplesmente não pode avançar.


"Não sei como um homem sem fidedignidade pode ser considerado aceitável."


A palavra dada é o que mantém a estrutura da sociedade unida. Sem ela, o caos não é uma possibilidade remota. É uma consequência inevitável.


Nietzsche, por sua vez, foi ainda mais fundo. Em "A Genealogia da Moral", ele define o ser humano como o único animal que desenvolveu a capacidade, e o fardo, de fazer promessas. Para Nietzsche, cumprir a palavra é o sinal mais alto de soberania individual. Somente quem é livre e forte tem o direito de empenhar sua palavra e a honra de mantê-la, mesmo contra as circunstâncias. Quem não cumpre o que prometeu não é apenas desonesto. É, na leitura de Nietzsche, simplesmente fraco.


"Criar um animal que pode prometer. Não é esta a tarefa paradoxal que a natureza se impôs com relação ao homem?"

 

Esta semana vivi mais uma decepção. Digo "mais uma" porque, infelizmente, isso se tornou corriqueiro. Mas agradeço a Deus ainda me decepcionar quando acontece. O fato de ainda me decepcionar significa que não me tornei cínico, que não banalizei a desonra, que ainda meço as pessoas pelos meus próprios valores. Um executivo, representando a sua empresa, fez um acordo comigo. Um acordo claro, documentado em conversas de WhatsApp, reafirmado por escrito. Sem aviso, sem ligação, sem a dignidade de uma explicação direta, o acordo foi quebrado. Fui comunicado por um subalterno. Enviei e-mails aos sócios e ao próprio executivo, com os prints da conversa. Não obtive resposta de nenhum deles. Recebi apenas pelo WhatsApp do executivo que tratou comigo a seguinte mensagem: "Trabalho numa empresa familiar e tenho que cumprir ordens".


Não há escravos. Como ensinou Nietzsche, o que distingue o homem do animal é exatamente a capacidade de prometer. E quem pode prometer, pode recusar. Pode se impor. Pode exigir que a palavra dada seja honrada. Ou pode, se a empresa para a qual trabalha não permite que sua palavra valha, simplesmente ir embora. Sempre há uma escolha. "Não posso fazer nada, foi a empresa que mandou." "Foi o sócio que decidiu." Ouço isso há mais de quarenta anos de vida profissional. E continua sendo mentira. A gente sempre pode. Sempre.


Nem sempre fui empresário. Também fui executivo. E toda vez que dei minha palavra, ela foi cumprida. Mesmo quando isso me gerou desgaste com presidentes de empresa a quem eu me reportava. Quando percebi que isso não seria mais possível, pedi demissão de uma grande multinacional e abri minha própria empresa. Sou empresário há 32 anos na área de consultoria, há quase 30 na pecuária, e, graças a Deus, minha palavra vale.


Uma empresa que fatura 10, 20, 30 bilhões... pode ser admirada por isso. Pode ser temida por isso. Mas jamais será respeitada por isso. O respeito não vem do faturamento. Vem de quanto se cumpre o que foi acordado, de quanto a prática, como disse Aristóteles, comprova que dali vêm confiança, moral e caráter. Respeito quem tem os bolsos vazios, mas cumpre a palavra. E não tenho nenhum respeito pelo que tem cofres abarrotados de dinheiro, mas que não cumpre o que acorda.

 

"Bola de meia, bola de gude", de Fernando Brant e Milton Nascimento sempre foi uma música muito importante para mim, pois ela retrata o que eu escolhi ser.

 

Meus valores morais nunca deixaram de ser os mesmos do menino quieto, calado e sempre reflexivo que nasceu e se criou na "Campininha", bairro mais antigo de Goiânia.

 

Valores morais que foram forjados na criação de maravilhosos Pais e Avós, que foram exemplos vivos de trabalho, integridade, justiça e generosidade.

 

"Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão. E me fala de coisas bonitas, que eu acredito que não deixarão de existir. Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor."

 

Muitos amigos e familiares não entendem por que me posiciono de forma tão transparente e firme contra o mal, os maus e suas injustiças.

 

Mas é simples:

 

"Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver. Não posso aceitar sossegado, qualquer sacanagem ser coisa normal!"

 

Se pago o preço ? Com certeza tenho pago e creio que pagarei muito mais, até com a vida do corpo, se preciso for.

 

My Way.

 

"E se o adulto balança, o menino vem para me dar a mão…"

 


Marx Alexandre Corrêa Gabriel

CEO da MB Consultoria há 32 anos, conselheiro de administração certificado pelo IBGC, Mestre em Administração de Empresas pela Universidade Fernando Pessoa (Porto, Portugal), autor do livro "Direto ao Ponto" , peregrino do Caminho de Santiago e da Vida e que jamais irá “aceitar sossegado, qualquer sacanagem ser coisa normal.”

 
 
 

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