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“A simplicidade é o último grau de sofisticação.” — Leonardo da Vinci


Ao longo das últimas décadas, líderes e empresas passaram a tratar a gestão como um campo fértil para modismos.


Novas metodologias, siglas sedutoras, narrativas inspiracionais e modelos importados surgem com frequência quase industrial. Muitos são bem-intencionados, alguns têm mérito conceitual, mas poucos sobrevivem ao teste do tempo e da realidade operacional.


Nesse movimento contínuo de reinvenção superficial, algo essencial foi sendo negligenciado: a simplicidade como princípio estruturante da boa gestão.


Não se trata de simplificação ingênua, tampouco de resistência à inovação.


Trata-se da capacidade, rara e madura de organizar a empresa a partir de fundamentos claros, compreensíveis e executáveis.


Exatamente como sugeria Leonardo da Vinci: a verdadeira sofisticação está em chegar ao simples depois de compreender o complexo.


A ilusão da gestão complexa


Muitas organizações confundem sofisticação com complexidade.


Criam sistemas de gestão excessivamente elaborados, indicadores em profusão, comitês sobrepostos e rituais decisórios que consomem tempo e energia, mas geram pouco aprendizado e quase nenhuma ação efetiva.


O efeito colateral é conhecido:

  • Estratégias que não se convertem em execução

  • Pessoas ocupadas, mas desalinhadas

  • Planos bem escritos e mal praticados

  • Cultura frágil, dependente de discursos e não de método


Quando a gestão perde simplicidade, ela perde governabilidade.


O alerta dos excessos: o caso WeWork


A trajetória da WeWork tornou-se um símbolo contemporâneo desse desvio. Embalada por uma narrativa grandiosa, estética moderna e um discurso quase messiânico, a empresa prometia “reinventar o trabalho” e “transformar o mundo corporativo”.


Entretanto, por trás da retórica sofisticada, faltaram fundamentos elementares:

  • Clareza de modelo econômico

  • Disciplina financeira

  • Governança mínima

  • Separação entre visão estratégica e ego do fundador


O colapso da WeWork não foi consequência da falta de inovação, mas da ausência de simplicidade estrutural na gestão. Bastariam alguns princípios básicos, bem praticados, para revelar precocemente os riscos que a complexidade artificial ocultava.


Orçamento não é planejamento


Um dos erros mais recorrentes nas empresas começa logo no início do ciclo anual: a confusão entre orçamento e planejamento.


O orçamento não é, por definição, planejamento estratégico. Ele é, essencialmente, uma estimativa da DRE do exercício, construída a partir de previsões de receitas, custos e despesas. Trata-se de uma fotografia projetada do resultado econômico-financeiro, sujeita a premissas e incertezas.


Planejar é outra coisa.


Planejar envolve escolhas:

  • Onde competir

  • Como competir

  • O que priorizar

  • O que não fazer


Quando a empresa reduz o planejamento a uma planilha orçamentária, ela inverte a lógica: passa a discutir números sem antes discutir sentido, direção e estratégia.


Tudo começa na proposta de valor


A verdadeira simplicidade da gestão começa com uma pergunta fundamental, frequentemente negligenciada:


Por que o cliente deve nos escolher e não ao concorrente?


Essa é a essência da proposta de valor. Sem uma resposta clara, honesta e compartilhada, qualquer esforço de planejamento se torna frágil.


Proposta de valor não é slogan, nem frase publicitária. É uma definição estratégica que orienta decisões críticas:

  • Que tipo de cliente queremos servir?

  • Que problema resolvemos melhor do que os outros?

  • Que atributos são inegociáveis na nossa entrega?


Empresas que não têm clareza sobre sua proposta de valor tendem a competir por preço, copiar concorrentes e perder identidade ao longo do tempo.


Da proposta de valor à estratégia


Definida a proposta de valor, o passo seguinte é responder: como iremos entregá-la de forma consistente e sustentável?


Aqui entra a estratégia.


Um modelo simples e poderoso para essa construção é o Mapa Estratégico, que traduz a estratégia em relações claras de causa e efeito, normalmente organizadas em perspectivas como:

  • Financeira

  • Clientes

  • Processos internos

  • Pessoas, cultura e aprendizado


O valor do mapa estratégico está justamente na sua capacidade de tornar visível a lógica da estratégia, evitando abstrações e discursos genéricos. Ele conecta intenção com execução.


Sem essa ponte, a proposta de valor permanece como desejo; com ela, transforma-se em plano de ação.


O PDCA como sistema nervoso da gestão



Com a estratégia definida, chega o momento mais negligenciado e, mais decisivo da gestão: fazer a empresa funcionar todos os dias de forma coerente com suas escolhas.


É aqui que o PDCA deixa de ser ferramenta e passa a ser arquitetura central de gestão.


O Ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act) é, talvez, o modelo mais simples, robusto e subestimado já criado. Sua genialidade está no fato de organizar o comportamento organizacional em torno de quatro perguntas fundamentais:

  1. O que queremos alcançar?

  2. O que estamos fazendo para isso?

  3. O que está funcionando — e o que não está?

  4. O que vamos corrigir, melhorar ou abandonar?


Nenhuma delas é sofisticada. Todas são essenciais.


Plan — Planejar com clareza e escolhas explícitas


Planejar, no PDCA, não é listar desejos nem produzir documentos extensos. É traduzir a estratégia em objetivos claros, metas mensuráveis, responsáveis definidos e critérios de sucesso explícitos.


Um bom “Plan” responde:

  • O objetivo está claramente ligado à estratégia?

  • A meta é específica, mensurável e relevante?

  • Os recursos necessários estão definidos?

  • Os riscos são conhecidos?


Planejamento sem clareza gera execução confusa.


Do — Executar com disciplina, não com heroísmo


Executar não é “fazer o que dá”, nem depender de esforços individuais heroicos. É transformar planos em rotinas, processos e comportamentos repetíveis.


Aqui, simplicidade é decisiva:

  • Poucas prioridades

  • Processos compreensíveis

  • Papéis bem definidos


Empresas que não executam bem geralmente não têm problema de estratégia, mas de disciplina operacional.


Check — Medir para aprender, não para punir


Talvez esta seja a etapa mais mal compreendida do PDCA.


Verificar não é fiscalizar pessoas; é avaliar sistemas. É confrontar o que foi planejado com o que foi realizado, buscando entendimento — não culpados.


Um bom “Check”:

  • Analisa causas, não apenas sintomas

  • Usa indicadores relevantes, não excessivos

  • Estimula reflexão, não medo


Organizações maduras aprendem com os desvios. As imaturas tentam escondê-los.


Act — Agir para evoluir


O ciclo só se completa no Act. Aqui reside a verdadeira melhoria contínua.


Agir significa:

  • Corrigir rotas quando algo não funciona

  • Padronizar o que deu certo

  • Ajustar metas e processos com base em aprendizado real


Sem essa etapa, o PDCA vira burocracia. Com ela, transforma-se em motor de evolução organizacional.


PDCA e cultura: onde tudo realmente acontece


O maior erro das empresas não é desconhecer o PDCA, mas tratá-lo como ferramenta técnica, e não como modelo cultural.


O PDCA só cumpre seu papel quando:

  • É praticado pela liderança, não delegado

  • Está presente nas reuniões estratégicas e operacionais

  • Orienta decisões, prioridades e investimentos

  • Cria um ambiente onde errar gera aprendizado, não punição


Quando internalizado, ele reduz improvisação, ansiedade e dependência de modismos. Cria empresas mais previsíveis, mais responsáveis e mais resilientes.


Liderar é sustentar o simples


Em um mundo cada vez mais ruidoso, talvez o maior desafio da liderança não seja inovar, mas sustentar o essencial com disciplina.


A verdadeira sofisticação não está em adicionar camadas, mas em remover excessos.


Não está em impressionar, mas em fazer funcionar.


Não está em discursos inspiradores, mas em sistemas simples, bem praticados e culturalmente enraizados.


Empresas que compreendem isso constroem longevidade.


As outras continuarão correndo atrás da próxima moda, até que a realidade, sempre simples e implacável, as alcance.


Marx Alexandre Corrêa Gabriel

Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”. 


2 comentários


Convidado:
11 de jan.

Os fogos de artifício devem ficar para as celebrações. Hoje muitos usam a piroctenia no dia-a-dia. A simplicidade como essência, como base, traz leveza e objetividade.

Parabéns, Marx, mais uma vez, por ir direto ao ponto.

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Hilton
09 de jan.

Meu, caro amigo irmão...

Um privilégio, ler seu texto e ensino de maneira, simples, objetiva e prática...


Gratidão Marx...

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