“A simplicidade é o último grau de sofisticação.” — Leonardo da Vinci
- Marx Gabriel

- 9 de jan.
- 5 min de leitura

Ao longo das últimas décadas, líderes e empresas passaram a tratar a gestão como um campo fértil para modismos.
Novas metodologias, siglas sedutoras, narrativas inspiracionais e modelos importados surgem com frequência quase industrial. Muitos são bem-intencionados, alguns têm mérito conceitual, mas poucos sobrevivem ao teste do tempo e da realidade operacional.
Nesse movimento contínuo de reinvenção superficial, algo essencial foi sendo negligenciado: a simplicidade como princípio estruturante da boa gestão.
Não se trata de simplificação ingênua, tampouco de resistência à inovação.
Trata-se da capacidade, rara e madura de organizar a empresa a partir de fundamentos claros, compreensíveis e executáveis.
Exatamente como sugeria Leonardo da Vinci: a verdadeira sofisticação está em chegar ao simples depois de compreender o complexo.
A ilusão da gestão complexa
Muitas organizações confundem sofisticação com complexidade.
Criam sistemas de gestão excessivamente elaborados, indicadores em profusão, comitês sobrepostos e rituais decisórios que consomem tempo e energia, mas geram pouco aprendizado e quase nenhuma ação efetiva.
O efeito colateral é conhecido:
Estratégias que não se convertem em execução
Pessoas ocupadas, mas desalinhadas
Planos bem escritos e mal praticados
Cultura frágil, dependente de discursos e não de método
Quando a gestão perde simplicidade, ela perde governabilidade.
O alerta dos excessos: o caso WeWork
A trajetória da WeWork tornou-se um símbolo contemporâneo desse desvio. Embalada por uma narrativa grandiosa, estética moderna e um discurso quase messiânico, a empresa prometia “reinventar o trabalho” e “transformar o mundo corporativo”.
Entretanto, por trás da retórica sofisticada, faltaram fundamentos elementares:
Clareza de modelo econômico
Disciplina financeira
Governança mínima
Separação entre visão estratégica e ego do fundador
O colapso da WeWork não foi consequência da falta de inovação, mas da ausência de simplicidade estrutural na gestão. Bastariam alguns princípios básicos, bem praticados, para revelar precocemente os riscos que a complexidade artificial ocultava.
Orçamento não é planejamento
Um dos erros mais recorrentes nas empresas começa logo no início do ciclo anual: a confusão entre orçamento e planejamento.
O orçamento não é, por definição, planejamento estratégico. Ele é, essencialmente, uma estimativa da DRE do exercício, construída a partir de previsões de receitas, custos e despesas. Trata-se de uma fotografia projetada do resultado econômico-financeiro, sujeita a premissas e incertezas.
Planejar é outra coisa.
Planejar envolve escolhas:
Onde competir
Como competir
O que priorizar
O que não fazer
Quando a empresa reduz o planejamento a uma planilha orçamentária, ela inverte a lógica: passa a discutir números sem antes discutir sentido, direção e estratégia.
Tudo começa na proposta de valor
A verdadeira simplicidade da gestão começa com uma pergunta fundamental, frequentemente negligenciada:
Por que o cliente deve nos escolher e não ao concorrente?
Essa é a essência da proposta de valor. Sem uma resposta clara, honesta e compartilhada, qualquer esforço de planejamento se torna frágil.
Proposta de valor não é slogan, nem frase publicitária. É uma definição estratégica que orienta decisões críticas:
Que tipo de cliente queremos servir?
Que problema resolvemos melhor do que os outros?
Que atributos são inegociáveis na nossa entrega?
Empresas que não têm clareza sobre sua proposta de valor tendem a competir por preço, copiar concorrentes e perder identidade ao longo do tempo.
Da proposta de valor à estratégia
Definida a proposta de valor, o passo seguinte é responder: como iremos entregá-la de forma consistente e sustentável?
Aqui entra a estratégia.
Um modelo simples e poderoso para essa construção é o Mapa Estratégico, que traduz a estratégia em relações claras de causa e efeito, normalmente organizadas em perspectivas como:
Financeira
Clientes
Processos internos
Pessoas, cultura e aprendizado
O valor do mapa estratégico está justamente na sua capacidade de tornar visível a lógica da estratégia, evitando abstrações e discursos genéricos. Ele conecta intenção com execução.
Sem essa ponte, a proposta de valor permanece como desejo; com ela, transforma-se em plano de ação.
O PDCA como sistema nervoso da gestão

Com a estratégia definida, chega o momento mais negligenciado e, mais decisivo da gestão: fazer a empresa funcionar todos os dias de forma coerente com suas escolhas.
É aqui que o PDCA deixa de ser ferramenta e passa a ser arquitetura central de gestão.
O Ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act) é, talvez, o modelo mais simples, robusto e subestimado já criado. Sua genialidade está no fato de organizar o comportamento organizacional em torno de quatro perguntas fundamentais:
O que queremos alcançar?
O que estamos fazendo para isso?
O que está funcionando — e o que não está?
O que vamos corrigir, melhorar ou abandonar?
Nenhuma delas é sofisticada. Todas são essenciais.
Plan — Planejar com clareza e escolhas explícitas
Planejar, no PDCA, não é listar desejos nem produzir documentos extensos. É traduzir a estratégia em objetivos claros, metas mensuráveis, responsáveis definidos e critérios de sucesso explícitos.
Um bom “Plan” responde:
O objetivo está claramente ligado à estratégia?
A meta é específica, mensurável e relevante?
Os recursos necessários estão definidos?
Os riscos são conhecidos?
Planejamento sem clareza gera execução confusa.
Do — Executar com disciplina, não com heroísmo
Executar não é “fazer o que dá”, nem depender de esforços individuais heroicos. É transformar planos em rotinas, processos e comportamentos repetíveis.
Aqui, simplicidade é decisiva:
Poucas prioridades
Processos compreensíveis
Papéis bem definidos
Empresas que não executam bem geralmente não têm problema de estratégia, mas de disciplina operacional.
Check — Medir para aprender, não para punir
Talvez esta seja a etapa mais mal compreendida do PDCA.
Verificar não é fiscalizar pessoas; é avaliar sistemas. É confrontar o que foi planejado com o que foi realizado, buscando entendimento — não culpados.
Um bom “Check”:
Analisa causas, não apenas sintomas
Usa indicadores relevantes, não excessivos
Estimula reflexão, não medo
Organizações maduras aprendem com os desvios. As imaturas tentam escondê-los.
Act — Agir para evoluir
O ciclo só se completa no Act. Aqui reside a verdadeira melhoria contínua.
Agir significa:
Corrigir rotas quando algo não funciona
Padronizar o que deu certo
Ajustar metas e processos com base em aprendizado real
Sem essa etapa, o PDCA vira burocracia. Com ela, transforma-se em motor de evolução organizacional.
PDCA e cultura: onde tudo realmente acontece
O maior erro das empresas não é desconhecer o PDCA, mas tratá-lo como ferramenta técnica, e não como modelo cultural.
O PDCA só cumpre seu papel quando:
É praticado pela liderança, não delegado
Está presente nas reuniões estratégicas e operacionais
Orienta decisões, prioridades e investimentos
Cria um ambiente onde errar gera aprendizado, não punição
Quando internalizado, ele reduz improvisação, ansiedade e dependência de modismos. Cria empresas mais previsíveis, mais responsáveis e mais resilientes.
Liderar é sustentar o simples
Em um mundo cada vez mais ruidoso, talvez o maior desafio da liderança não seja inovar, mas sustentar o essencial com disciplina.
A verdadeira sofisticação não está em adicionar camadas, mas em remover excessos.
Não está em impressionar, mas em fazer funcionar.
Não está em discursos inspiradores, mas em sistemas simples, bem praticados e culturalmente enraizados.
Empresas que compreendem isso constroem longevidade.
As outras continuarão correndo atrás da próxima moda, até que a realidade, sempre simples e implacável, as alcance.
Marx Alexandre Corrêa Gabriel
Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”.






Os fogos de artifício devem ficar para as celebrações. Hoje muitos usam a piroctenia no dia-a-dia. A simplicidade como essência, como base, traz leveza e objetividade.
Parabéns, Marx, mais uma vez, por ir direto ao ponto.
Meu, caro amigo irmão...
Um privilégio, ler seu texto e ensino de maneira, simples, objetiva e prática...
Gratidão Marx...