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Como um CEO Engana um Conselho por 10 Anos?


Introdução: A Notícia que Confirma a Teoria


Em janeiro de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluiu seu inquérito sobre a Americanas, apontando o ex-CEO Miguel Gutierrez como o líder de uma fraude que operou por, no mínimo, uma década, causando prejuízos estimados entre R$ 22,8 bilhões e R$ 25 bilhões.


A conclusão formaliza o que o mercado já suspeitava, mas levanta uma pergunta incômoda: como um esquema dessa magnitude pôde prosperar sob as barbas de um conselho de administração, de comitês de auditoria e de uma das maiores firmas de auditoria do mundo por tanto tempo?


Quando um caso de fraude se estende por uma década, a explicação nunca é simples. Não é um “truque contábil” isolado, nem um ato pontual de má-fé. Uma fraude longa é, quase sempre, o resultado de um arranjo sistêmico: alguém conduz, muitos toleram, alguns não veem, outros preferem não ver, e as instituições que deveriam interromper o processo não o fazem.


A pergunta “como um CEO engana um conselho por 10 anos?” é legítima, mas pode induzir a uma leitura confortável: a de que o conselho foi apenas vítima. Na prática, fraudes prolongadas exigem algo mais profundo: um ambiente no qual a governança perde tração, a vigilância vira cerimônia e o dever fiduciário é substituído por confiança, prestígio, rotina e medo de confronto.


A seguir, os 10 mecanismos mais recorrentes por trás desse tipo de desastre, não como teoria, mas como padrão observado em grandes crises corporativas.


Índice de Referência: Os 10 Mecanismos de Falha na Governança


1. Assimetria de Informação: O CEO controla o fluxo de informação, criando duas realidades: a real (interna) e a reportada (para o conselho).


2. Capital Simbólico: Prestígio e histórico de resultados anestesiam o ceticismo do conselho.


3. Confiança como Abdicação: Conselho frágil confia e abandona, sem verificar dados ou exigir reconciliações.


4. Comitês de Fachada: Comitês de auditoria viram carimbo institucional, sem profundidade técnica.


5. Homogeneidade do Conselho: Baixa diversidade cognitiva leva ao consenso automático e ausência de dissenso.


6. Incentivos Distorcidos: O sistema premia o silêncio e pune o questionamento.


7. Fraude como Processo: Começa pequena (ajuste provisório) e vira sistema (arquitetura).


8. Conselheiros Mal Preparados: Falta de competência financeira básica para ler balanços e identificar sinais de alerta.


9. Omissão como Decisão: Conselheiro que percebe algo estranho mas prefere não agir.


10. Falha da Auditoria Externa: O último mecanismo de proteção falha em detectar fraudes.


1) Assimetria de Informação: O CEO Controla o que o Conselho Enxerga


Conselho não executa. Conselho supervisiona. E supervisionar significa decidir com base em relatórios, indicadores, explicações e comparações. A primeira alavanca do CEO é óbvia: controlar o fluxo de informação.


Isso pode acontecer de modo elegante:


  • O conselho recebe materiais tarde, extensos e pouco auditáveis;

  • As apresentações são “bem desenhadas”, mas com poucos dados brutos;

  • As premissas críticas ficam fora dos slides;

  • Os assuntos espinhosos entram como “nota de rodapé”;

  • Perguntas são respondidas com narrativas longas e técnicas que encerram o debate.


Quando o conselho aceita esse modo de funcionamento, ocorre um fenômeno perigoso: a empresa passa a operar com duas realidades, a real (interna) e a reportada (para o conselho). A fraude prospera no intervalo entre elas.


2) Capital Simbólico: Prestígio e Histórico de Resultados Anestesiam o Ceticismo


CEOs com reputação e trajetória de entrega acumulam uma blindagem invisível. O conselho, consciente ou não, passa a “emprestar credibilidade” ao executivo, tratando inconsistências como ruídos, não como sinais.


Acontece assim:


  • O CEO “sempre deu certo”;

  • Os números parecem confirmar a competência;

  • O mercado aplaude;

  • Bancos oferecem crédito;

  • Analistas reforçam a narrativa.


A pergunta muda de “isso é verdadeiro?” para “como isso deve estar certo?”. É aí que o ceticismo morre, não por ignorância, mas por admiração excessiva. O conselho vira guardião da biografia do CEO, quando deveria ser guardião da empresa.


3) Confiança Confundida com Abdicação: Governança Vira Fé, Não Método


Conselho forte confia, mas confere. Conselho frágil confia e abandona. A abdicação se manifesta em comportamentos “normais”:


  • Aceitar explicações sem pedir reconciliações numéricas;

  • Aprovar demonstrações sem testar coerência entre DRE, caixa e dívida;

  • Tolerar “ajustes” recorrentes que deveriam ser exceção;

  • Não exigir visões alternativas (cenários, estresses, sensibilidades).


Governança exige método. E método é repetitivo: cruzar, reconciliar, testar, comparar. Quando o conselho não faz isso, qualquer CEO com inteligência razoável consegue “narrar” resultados. Não é sobre enganar com genialidade; é sobre não ser obrigado a provar.


4) Comitês que Existem, mas Não Funcionam com Profundidade


Muitas companhias possuem Comitê de Auditoria, Riscos e Controles Internos. Ótimo. O problema é quando esses comitês viram carimbo institucional.


A fragilidade típica é esta:


  • Reuniões curtas;

  • Pauta ampla demais;

  • Pouca exploração de exceções;

  • Dependência do que a própria diretoria apresenta;

  • Recomendação “sem atrito” para o plenário do conselho.


Se o comitê não trabalha com coragem técnica, ele vira uma camada de proteção… para a diretoria, não para a empresa. Em fraudes longas, o comitê costuma ser o lugar onde a verdade deveria aparecer, mas é onde ela é “domesticada”, suavizada e posta em linguagem aceitável.


5) Homogeneidade do Conselho: Ausência de Dissenso, Sobra Complacência


Conselhos com baixa diversidade de pensamento (não apenas diversidade demográfica, mas diversidade cognitiva) têm um problema estrutural: eles tendem ao consenso automático.


Quando todos:


  • Pensam parecido,

  • Têm trajetórias semelhantes,

  • Pertencem ao mesmo círculo,

  • Evitam conflito por cultura,


A governança vira “conversa entre iguais”, e o conflito saudável desaparece. Sem dissenso, o CEO ganha um presente: ninguém faz as perguntas que “estragam o almoço”.


Conselho forte precisa de gente que diga: “isso não fecha”, “isso é incoerente”, “quero os dados”, “quero uma opinião externa”.


Sem esse perfil, a fraude encontra terreno fértil.


6) Incentivos Distorcidos: O Sistema Premia o Silêncio e Pune o Questionamento


Enquanto os resultados aparentes são bons, questionar custa caro. O conselheiro crítico passa a ser percebido como:


  • Pessimista,

  • “Não alinhado”,

  • Criador de ruído,

  • Ameaça à estabilidade.


E há outro elemento: em muitas estruturas, conselheiros têm incentivos indiretos (reputação, convites futuros, relações com acionistas, redes corporativas). O ambiente pode induzir a uma postura "política", quando o cargo exige postura fiduciária.


Fraudes longas se alimentam disso: do medo de ser o chato, do medo de errar acusando, do medo de “exagerar”. Mas governança real exige o contrário: coragem de parecer chato antes de virar manchete depois.


7) Fraude como Processo: Começa Pequena, Vira Sistema


Fraudes longas raramente começam como “fraude bilionária”. Elas começam como:


  • Interpretação agressiva de norma contábil;

  • Alongamento de prazo;

  • Operação “ponte”;

  • Ajuste provisório;

  • Solução “para atravessar o trimestre”.


O problema é que o provisório vira rotina. E a rotina vira dependência. E a dependência vira arquitetura.


Quando o conselho descobre, muitas vezes já é tarde, porque não se trata mais de uma

decisão errada: trata-se de uma empresa inteira rodando em cima de uma distorção.


8) Conselheiros Mal Preparados: Não Estudar Números é Incompetência Fiduciária


Aqui está um ponto que poucos têm coragem de dizer com clareza: há conselheiro que não domina o básico do que deveria dominar.


Não é aceitável, em 2026, que um conselheiro:


  • Não consiga ler um balanço com senso crítico;

  • Não saiba interpretar notas explicativas;

  • Não entenda a diferença entre lucro contábil e caixa;

  • Não consiga conectar capital de giro, endividamento e resultado.


A consequência é óbvia: ele se apoia na narrativa do CEO, nos slides e em frases de efeito.


E os sinais de alerta, quase sempre, estão lá, para quem sabe olhar:


  • Lucro subindo e caixa não acompanhando;

  • Evolução estranha de fornecedores e outras obrigações;

  • "Ajustes" recorrentes no EBITDA;

  • Reconciliações frágeis;

  • Itens materiais em "outros" no passivo/ativo.


Conselho não é palco. É oficina. E oficina exige que o conselheiro estude antes, chegue

preparado e faça perguntas incômodas.


9) Omissão: Conselheiro que Não se Posiciona Escolhe a Pior Decisão — a Inércia


Mesmo quando um conselheiro percebe "algo estranho", muitos preferem:


  • "Depois eu trato";

  • "Vamos ver no próximo trimestre";

  • "Não quero criar clima";

  • "Vou falar com ele a sós".


Isso é fatal. Porque fraude longa não é um problema que se resolve "em particular". Fraude longa exige ação institucional: pedido formal de explicação, registro, diligência externa, investigação, revisão de processos, auditoria forense se necessário.


Conselheiro que não registra divergência, que não exige aprofundamento e que não enfrenta o tema não está sendo prudente, está sendo omisso.


E omissão, em governança, é decisão.


A pergunta que conselhos fortes fazem e conselhos fracos evitam, é simples:


"Se isso for verdade, onde está o dinheiro?"


Essa pergunta força reconciliações reais. E reconciliações reais desmontam narrativas.


10) Falha das Auditorias Externas: Quando o “Último Cinturão” Também Não Segura


Agora o ponto que fecha a responsabilidade sistêmica: a auditoria externa.


A auditoria não é um adereço reputacional. Ela é, em tese, um dos últimos mecanismos de proteção do mercado e dos acionistas. Ela tem obrigação de:


  • Aplicar procedimentos robustos de auditoria;

  • Avaliar risco de distorção relevante por fraude;

  • Testar confirmações e evidências externas quando necessário;

  • Exigir documentação adequada;

  • Tratar inconsistências com escalonamento;

  • Reportar ao Comitê de Auditoria e ao Conselho temas críticos.


Quando uma fraude dura uma década, a pergunta inevitável é: por que os procedimentos não identificaram? Se identificaram, por que não escalaram? Se escalaram, por que o Conselho não agiu?


Em casos desse tipo, há falhas típicas:


  • Excesso de confiança em controles internos que já estavam capturados;

  • Testagem insuficiente de transações críticas;

  • Dependência de explicações da diretoria sem validação externa;

  • Cultura de "não comprar briga" com cliente grande;

  • Relatórios com linguagem "neutra" para problemas materiais.


Quando a auditoria externa falha, o sistema perde um de seus pilares. E o conselho perde um instrumento de alerta, justamente o instrumento que deveria funcionar quando a diretoria não é confiável.


Um exemplo contemporâneo dessa falha é o caso do Banco Master (2025), onde as auditorias KPMG e PwC aprovaram balanços com R$ 19,5 bilhões em ativos fictícios. As firmas descreveram os problemas em linguagem técnica, "incerteza de preço", "parágrafo de ênfase", mas emitiram parecer sem ressalvas. Quando o Banco Central investigou, descobriu que 100% de uma amostra de 30 créditos aleatórios eram falsos. A pergunta que emerge é incômoda: qual é a diferença entre uma auditoria que não verifica e uma auditoria que não existe?


Recomendações da MB Consultoria


O caso Americanas não deve ser apenas um espetáculo de recriminações, mas um catalisador para a mudança. Com base em nossa expertise de 30 anos em governança corporativa, a MB Consultoria recomenda:


▪ Fortalecimento dos Conselhos: Ir além do compliance formal. Conselhos precisam de diversidade cognitiva real, membros com coragem para o dissenso e com tempo dedicado para mergulhar nos números. A remuneração dos conselheiros deve ser repensada para atrair os mais qualificados.


▪ Responsabilização da Auditoria: As firmas de auditoria não podem ser vistas como parceiras de negócios de seus clientes. A regulação deve aumentar a responsabilização, promover rotação obrigatória com mais frequência e criar mecanismos que garantam a independência real, não apenas aparente.


▪ Educação Financeira para Conselheiros: O dever fiduciário exige competência. Programas de formação contínua em finanças e contabilidade crítica devem ser pré-requisitos para membros de comitês de auditoria.


▪ Canais de Denúncia Independentes: Os canais de whistleblowing devem ser geridos por entidades externas e independentes, reportando-se diretamente ao presidente do conselho, garantindo anonimato e proteção contra retaliações.


▪ Método Rigoroso de Supervisão: Implementar procedimentos sistemáticos de verificação: reconciliação mensal de lucro vs. caixa, análise de variações, testes de coerência entre demonstrações financeiras


Conclusão: Não é um CEO Genial — é um Sistema Frágil


Uma fraude longa não é um feito de inteligência individual. É, quase sempre, a consequência de um ambiente com governança frágil, conselho complacente e auditoria insuficiente. Quando isso acontece, a empresa não é apenas vítima de um executivo. Ela é vítima de um arranjo institucional que deixou de cumprir sua função.


Governança real não é cordialidade. É tensão produtiva. Não é confiança pessoal. É verificação. Não é reunião. É preparo. Não é "boa relação". É dever fiduciário.


E aqui está a síntese mais dura e mais útil: fraudes longas não sobrevivem a conselhos e auditorias fortes. Quando sobrevivem, o problema é estrutural.


MB Consultoria — 30 anos de expertise em Governança Corporativa


Marx Alexandre Corrêa Gabriel

Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”. 


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