Como um CEO Engana um Conselho por 10 Anos?
- Marx Gabriel

- há 5 horas
- 8 min de leitura

Introdução: A Notícia que Confirma a Teoria
Em janeiro de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluiu seu inquérito sobre a Americanas, apontando o ex-CEO Miguel Gutierrez como o líder de uma fraude que operou por, no mínimo, uma década, causando prejuízos estimados entre R$ 22,8 bilhões e R$ 25 bilhões.
A conclusão formaliza o que o mercado já suspeitava, mas levanta uma pergunta incômoda: como um esquema dessa magnitude pôde prosperar sob as barbas de um conselho de administração, de comitês de auditoria e de uma das maiores firmas de auditoria do mundo por tanto tempo?
Quando um caso de fraude se estende por uma década, a explicação nunca é simples. Não é um “truque contábil” isolado, nem um ato pontual de má-fé. Uma fraude longa é, quase sempre, o resultado de um arranjo sistêmico: alguém conduz, muitos toleram, alguns não veem, outros preferem não ver, e as instituições que deveriam interromper o processo não o fazem.
A pergunta “como um CEO engana um conselho por 10 anos?” é legítima, mas pode induzir a uma leitura confortável: a de que o conselho foi apenas vítima. Na prática, fraudes prolongadas exigem algo mais profundo: um ambiente no qual a governança perde tração, a vigilância vira cerimônia e o dever fiduciário é substituído por confiança, prestígio, rotina e medo de confronto.
A seguir, os 10 mecanismos mais recorrentes por trás desse tipo de desastre, não como teoria, mas como padrão observado em grandes crises corporativas.
Índice de Referência: Os 10 Mecanismos de Falha na Governança
1. Assimetria de Informação: O CEO controla o fluxo de informação, criando duas realidades: a real (interna) e a reportada (para o conselho).
2. Capital Simbólico: Prestígio e histórico de resultados anestesiam o ceticismo do conselho.
3. Confiança como Abdicação: Conselho frágil confia e abandona, sem verificar dados ou exigir reconciliações.
4. Comitês de Fachada: Comitês de auditoria viram carimbo institucional, sem profundidade técnica.
5. Homogeneidade do Conselho: Baixa diversidade cognitiva leva ao consenso automático e ausência de dissenso.
6. Incentivos Distorcidos: O sistema premia o silêncio e pune o questionamento.
7. Fraude como Processo: Começa pequena (ajuste provisório) e vira sistema (arquitetura).
8. Conselheiros Mal Preparados: Falta de competência financeira básica para ler balanços e identificar sinais de alerta.
9. Omissão como Decisão: Conselheiro que percebe algo estranho mas prefere não agir.
10. Falha da Auditoria Externa: O último mecanismo de proteção falha em detectar fraudes.
1) Assimetria de Informação: O CEO Controla o que o Conselho Enxerga
Conselho não executa. Conselho supervisiona. E supervisionar significa decidir com base em relatórios, indicadores, explicações e comparações. A primeira alavanca do CEO é óbvia: controlar o fluxo de informação.
Isso pode acontecer de modo elegante:
O conselho recebe materiais tarde, extensos e pouco auditáveis;
As apresentações são “bem desenhadas”, mas com poucos dados brutos;
As premissas críticas ficam fora dos slides;
Os assuntos espinhosos entram como “nota de rodapé”;
Perguntas são respondidas com narrativas longas e técnicas que encerram o debate.
Quando o conselho aceita esse modo de funcionamento, ocorre um fenômeno perigoso: a empresa passa a operar com duas realidades, a real (interna) e a reportada (para o conselho). A fraude prospera no intervalo entre elas.
2) Capital Simbólico: Prestígio e Histórico de Resultados Anestesiam o Ceticismo
CEOs com reputação e trajetória de entrega acumulam uma blindagem invisível. O conselho, consciente ou não, passa a “emprestar credibilidade” ao executivo, tratando inconsistências como ruídos, não como sinais.
Acontece assim:
O CEO “sempre deu certo”;
Os números parecem confirmar a competência;
O mercado aplaude;
Bancos oferecem crédito;
Analistas reforçam a narrativa.
A pergunta muda de “isso é verdadeiro?” para “como isso deve estar certo?”. É aí que o ceticismo morre, não por ignorância, mas por admiração excessiva. O conselho vira guardião da biografia do CEO, quando deveria ser guardião da empresa.
3) Confiança Confundida com Abdicação: Governança Vira Fé, Não Método
Conselho forte confia, mas confere. Conselho frágil confia e abandona. A abdicação se manifesta em comportamentos “normais”:
Aceitar explicações sem pedir reconciliações numéricas;
Aprovar demonstrações sem testar coerência entre DRE, caixa e dívida;
Tolerar “ajustes” recorrentes que deveriam ser exceção;
Não exigir visões alternativas (cenários, estresses, sensibilidades).
Governança exige método. E método é repetitivo: cruzar, reconciliar, testar, comparar. Quando o conselho não faz isso, qualquer CEO com inteligência razoável consegue “narrar” resultados. Não é sobre enganar com genialidade; é sobre não ser obrigado a provar.
4) Comitês que Existem, mas Não Funcionam com Profundidade
Muitas companhias possuem Comitê de Auditoria, Riscos e Controles Internos. Ótimo. O problema é quando esses comitês viram carimbo institucional.
A fragilidade típica é esta:
Reuniões curtas;
Pauta ampla demais;
Pouca exploração de exceções;
Dependência do que a própria diretoria apresenta;
Recomendação “sem atrito” para o plenário do conselho.
Se o comitê não trabalha com coragem técnica, ele vira uma camada de proteção… para a diretoria, não para a empresa. Em fraudes longas, o comitê costuma ser o lugar onde a verdade deveria aparecer, mas é onde ela é “domesticada”, suavizada e posta em linguagem aceitável.
5) Homogeneidade do Conselho: Ausência de Dissenso, Sobra Complacência
Conselhos com baixa diversidade de pensamento (não apenas diversidade demográfica, mas diversidade cognitiva) têm um problema estrutural: eles tendem ao consenso automático.
Quando todos:
Pensam parecido,
Têm trajetórias semelhantes,
Pertencem ao mesmo círculo,
Evitam conflito por cultura,
A governança vira “conversa entre iguais”, e o conflito saudável desaparece. Sem dissenso, o CEO ganha um presente: ninguém faz as perguntas que “estragam o almoço”.
Conselho forte precisa de gente que diga: “isso não fecha”, “isso é incoerente”, “quero os dados”, “quero uma opinião externa”.
Sem esse perfil, a fraude encontra terreno fértil.
6) Incentivos Distorcidos: O Sistema Premia o Silêncio e Pune o Questionamento
Enquanto os resultados aparentes são bons, questionar custa caro. O conselheiro crítico passa a ser percebido como:
Pessimista,
“Não alinhado”,
Criador de ruído,
Ameaça à estabilidade.
E há outro elemento: em muitas estruturas, conselheiros têm incentivos indiretos (reputação, convites futuros, relações com acionistas, redes corporativas). O ambiente pode induzir a uma postura "política", quando o cargo exige postura fiduciária.
Fraudes longas se alimentam disso: do medo de ser o chato, do medo de errar acusando, do medo de “exagerar”. Mas governança real exige o contrário: coragem de parecer chato antes de virar manchete depois.
7) Fraude como Processo: Começa Pequena, Vira Sistema
Fraudes longas raramente começam como “fraude bilionária”. Elas começam como:
Interpretação agressiva de norma contábil;
Alongamento de prazo;
Operação “ponte”;
Ajuste provisório;
Solução “para atravessar o trimestre”.
O problema é que o provisório vira rotina. E a rotina vira dependência. E a dependência vira arquitetura.
Quando o conselho descobre, muitas vezes já é tarde, porque não se trata mais de uma
decisão errada: trata-se de uma empresa inteira rodando em cima de uma distorção.
8) Conselheiros Mal Preparados: Não Estudar Números é Incompetência Fiduciária
Aqui está um ponto que poucos têm coragem de dizer com clareza: há conselheiro que não domina o básico do que deveria dominar.
Não é aceitável, em 2026, que um conselheiro:
Não consiga ler um balanço com senso crítico;
Não saiba interpretar notas explicativas;
Não entenda a diferença entre lucro contábil e caixa;
Não consiga conectar capital de giro, endividamento e resultado.
A consequência é óbvia: ele se apoia na narrativa do CEO, nos slides e em frases de efeito.
E os sinais de alerta, quase sempre, estão lá, para quem sabe olhar:
Lucro subindo e caixa não acompanhando;
Evolução estranha de fornecedores e outras obrigações;
"Ajustes" recorrentes no EBITDA;
Reconciliações frágeis;
Itens materiais em "outros" no passivo/ativo.
Conselho não é palco. É oficina. E oficina exige que o conselheiro estude antes, chegue
preparado e faça perguntas incômodas.
9) Omissão: Conselheiro que Não se Posiciona Escolhe a Pior Decisão — a Inércia
Mesmo quando um conselheiro percebe "algo estranho", muitos preferem:
"Depois eu trato";
"Vamos ver no próximo trimestre";
"Não quero criar clima";
"Vou falar com ele a sós".
Isso é fatal. Porque fraude longa não é um problema que se resolve "em particular". Fraude longa exige ação institucional: pedido formal de explicação, registro, diligência externa, investigação, revisão de processos, auditoria forense se necessário.
Conselheiro que não registra divergência, que não exige aprofundamento e que não enfrenta o tema não está sendo prudente, está sendo omisso.
E omissão, em governança, é decisão.
A pergunta que conselhos fortes fazem e conselhos fracos evitam, é simples:
"Se isso for verdade, onde está o dinheiro?"
Essa pergunta força reconciliações reais. E reconciliações reais desmontam narrativas.
10) Falha das Auditorias Externas: Quando o “Último Cinturão” Também Não Segura
Agora o ponto que fecha a responsabilidade sistêmica: a auditoria externa.
A auditoria não é um adereço reputacional. Ela é, em tese, um dos últimos mecanismos de proteção do mercado e dos acionistas. Ela tem obrigação de:
Aplicar procedimentos robustos de auditoria;
Avaliar risco de distorção relevante por fraude;
Testar confirmações e evidências externas quando necessário;
Exigir documentação adequada;
Tratar inconsistências com escalonamento;
Reportar ao Comitê de Auditoria e ao Conselho temas críticos.
Quando uma fraude dura uma década, a pergunta inevitável é: por que os procedimentos não identificaram? Se identificaram, por que não escalaram? Se escalaram, por que o Conselho não agiu?
Em casos desse tipo, há falhas típicas:
Excesso de confiança em controles internos que já estavam capturados;
Testagem insuficiente de transações críticas;
Dependência de explicações da diretoria sem validação externa;
Cultura de "não comprar briga" com cliente grande;
Relatórios com linguagem "neutra" para problemas materiais.
Quando a auditoria externa falha, o sistema perde um de seus pilares. E o conselho perde um instrumento de alerta, justamente o instrumento que deveria funcionar quando a diretoria não é confiável.
Um exemplo contemporâneo dessa falha é o caso do Banco Master (2025), onde as auditorias KPMG e PwC aprovaram balanços com R$ 19,5 bilhões em ativos fictícios. As firmas descreveram os problemas em linguagem técnica, "incerteza de preço", "parágrafo de ênfase", mas emitiram parecer sem ressalvas. Quando o Banco Central investigou, descobriu que 100% de uma amostra de 30 créditos aleatórios eram falsos. A pergunta que emerge é incômoda: qual é a diferença entre uma auditoria que não verifica e uma auditoria que não existe?
Recomendações da MB Consultoria
O caso Americanas não deve ser apenas um espetáculo de recriminações, mas um catalisador para a mudança. Com base em nossa expertise de 30 anos em governança corporativa, a MB Consultoria recomenda:
▪ Fortalecimento dos Conselhos: Ir além do compliance formal. Conselhos precisam de diversidade cognitiva real, membros com coragem para o dissenso e com tempo dedicado para mergulhar nos números. A remuneração dos conselheiros deve ser repensada para atrair os mais qualificados.
▪ Responsabilização da Auditoria: As firmas de auditoria não podem ser vistas como parceiras de negócios de seus clientes. A regulação deve aumentar a responsabilização, promover rotação obrigatória com mais frequência e criar mecanismos que garantam a independência real, não apenas aparente.
▪ Educação Financeira para Conselheiros: O dever fiduciário exige competência. Programas de formação contínua em finanças e contabilidade crítica devem ser pré-requisitos para membros de comitês de auditoria.
▪ Canais de Denúncia Independentes: Os canais de whistleblowing devem ser geridos por entidades externas e independentes, reportando-se diretamente ao presidente do conselho, garantindo anonimato e proteção contra retaliações.
▪ Método Rigoroso de Supervisão: Implementar procedimentos sistemáticos de verificação: reconciliação mensal de lucro vs. caixa, análise de variações, testes de coerência entre demonstrações financeiras
Conclusão: Não é um CEO Genial — é um Sistema Frágil
Uma fraude longa não é um feito de inteligência individual. É, quase sempre, a consequência de um ambiente com governança frágil, conselho complacente e auditoria insuficiente. Quando isso acontece, a empresa não é apenas vítima de um executivo. Ela é vítima de um arranjo institucional que deixou de cumprir sua função.
Governança real não é cordialidade. É tensão produtiva. Não é confiança pessoal. É verificação. Não é reunião. É preparo. Não é "boa relação". É dever fiduciário.
E aqui está a síntese mais dura e mais útil: fraudes longas não sobrevivem a conselhos e auditorias fortes. Quando sobrevivem, o problema é estrutural.
MB Consultoria — 30 anos de expertise em Governança Corporativa
Marx Alexandre Corrêa Gabriel
Consultor de Empresas, Diretor da MB Consultoria, Conselheiro de Administração, Pecuarista, Mestre em Administração de Empresas, Pós-graduado em Agronegócio, autor do livro “Direto ao Ponto”.






Comentários